Morre Tomás Improta aos 77 anos, pianista lendário da MPB

Despede-se Tomás Improta, referência musical de gerações
Neste domingo, 23 de agosto, a música brasileira perdeu uma de suas figuras mais emblemáticas com o falecimento de Tomás Improta. O renomado pianista, que deixa um legado de mais de cinco décadas dedicadas à arte, faleceu na cidade do Rio de Janeiro, sua terra natal, aos 77 anos, em decorrência de complicações oriundas de um câncer na garganta.
Tomás Improta França nasceu em 24 de setembro de 1948 e construiu uma carreira extraordinária navegando entre os mundos do jazz e da música popular brasileira. Sua morte marca o encerramento de uma trajetória singular, iniciada ainda na infância quando sua musicalidade já se apresentava como algo excepcional e promissor.
Trajetória brilhante entre o jazz e a MPB
Ao longo de 56 anos de profissão, Tomás Improta consolidou-se como um dos músicos mais respeitados do cenário nacional. Sua expertise transcendeu as fronteiras de um único gênero musical, permitindo-lhe transitar com desenvoltura entre a sofisticação do jazz e as raízes profundas da MPB. Essa versatilidade o tornou um parceiro indispensável para inúmeros artistas de renome.
Como instrumentista acompanhante, colaborou em projetos memoráveis ao lado de grandes personalidades da música brasileira. Trabalhou intensamente com Chico Buarque, Djavan, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia, entre outros nomes de expressão nacional. Sua capacidade de compreender e reinterpretar arranjos demonstrava uma musicalidade refinada e uma sensibilidade artística fora do comum.
Participação em projetos icônicos
Um momento particularmente significativo na carreira de Tomás Improta ocorreu quando integrou A Outra Banda da Terra, formação criada por Caetano Veloso em finais de 1977. Com esse grupo, participou da gravação de álbuns que se tornaram marcos na história da música brasileira contemporânea, incluindo "Muito (Dentro da estrela azulada)" lançado em 1978, "Cinema transcendental" de 1979, "Outras palavras" em 1981, "Cores, nomes" de 1982 e "Uns" gravado em 1983.
Discografia solo que expressa sua genialidade
Além de suas contribuições como acompanhante, Tomás Improta desenvolveu uma discografia solo de considerável importância no segmento da música instrumental. Seus álbuns refletem a profundidade de seu pensamento musical e a variedade de suas influências artísticas. Entre as obras mais relevantes destacam-se "Tear" de 1992, que revelava sua capacidade de criar texturas sonoras inovadoras.
"Bartok jazz" (1995) demonstrava sua admiração pela tradição clássica reinterpretada através de uma perspectiva jazz. Já "Certas mulheres" (1998) consolidava sua posição como compositor de sensibilidade aguçada. A gravação "Dorival – Tomás Improta interpreta Dorival Caymmi" (2002) representava uma homenagem profunda a um dos grandes mestres da música brasileira.
Seus trabalhos mais recentes incluem "A volta de Alice" (2015) e "Olha pro céu" (2017), mantendo até o final de sua vida a criatividade e a vontade de explorar novos territórios musicais. Também merece destaque sua parceria com a flautista Andrea Ernest Dias, cristalizada no álbum "Andrea Ernest Dias, flauta – Tomás Improta, piano" (2005), que exemplifica sua habilidade em dialogar musicalmente com outros instrumentistas.
Múltiplas facetas de um artista completo
Tomás Improta não se limitava ao piano de concerto. Além de sua atuação como intérprete, trabalhou como compositor, criando peças originais que refletiam suas influências e seu próprio estilo musical. Sua atividade como arranjador foi fundamental para moldar o som de diversos projetos nos quais se envolveu, trazendo sua marca pessoal a cada produção.
Sua contribuição também se estendeu ao ensino da música, atuando como professor e transmitindo seus conhecimentos a gerações de músicos em desenvolvimento. Além disso, Tomás Improta foi autor de livros dedicados à teoria musical, compartilhando suas reflexões e aprendizados acumulados durante décadas de prática profissional.
Homenagens e reconhecimento tardio
A notícia de seu falecimento gerou manifestações de pesar nas redes sociais entre colegas instrumentistas e profissionais da música. Pianistas como Kiko Continentino e Dirceu Leite, reconhecido como virtuoso dos sopros, externaram seu luto pela perda. Para esses artistas e para a comunidade musical brasileira, Tomás Improta era considerado um músico de importância máxima para a história e o desenvolvimento da música brasileira contemporânea.
Cerimônia de despedida
Segundo informações divulgadas, o corpo do artista será velado e cremado na segunda-feira, 24 de agosto, no Crematório da Penitência, localizado no Caju. O local escolhido reflete uma vida dedicada à simplicidade e à essência da arte musical, características marcantes de sua personalidade.
A morte de Tomás Improta representa um ponto de inflexão na história musical brasileira. Sua ausência deixará um vazio no cenário artístico nacional, mas seu legado permanecerá vivo através de suas gravações, seus ensinamentos e da influência que exerceu sobre inúmeros músicos que tiveram o privilégio de trabalhar ao seu lado ou de aprender com sua dedicação à excelência musical.
