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Miami ultrapassa Nova York como capital dos ultrarricos nos EUA

Miami ultrapassa Nova York como capital dos ultrarricos nos EUA
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Miami emerge como novo refúgio dos ultrarricos

Miami ultrarricos escolheram a capital do sul da Flórida como seu principal destino de investimento imobiliário. Em março, o fundador do Facebook, Mark Zuckerberg, adquiriu a propriedade mais cara já comercializada na cidade, desembolsando US$ 170 milhões por uma mansão em construção na exclusiva ilha de Indian Creek. No entanto, este recorde pode ser brevemente superado pela residência do corretor de títulos John Daveney em Key Biscayne, atualmente avaliada em US$ 237 milhões.

A transformação de Miami em polo de atração para o 0,1% mais rico da população mundial ocorreu de forma acelerada nos últimos anos. Além de Zuckerberg, figuras como Jeff Bezos, fundador da Amazon; Larry Page e Sergey Brin, criadores do Google; e Ivanka Trump com seu marido Jared Kushner, também estabeleceram residência na região. Este fenômeno criou um efeito acumulativo que consolidou Miami como símbolo de status e prosperidade entre os mais abastados.

Os fatores que impulsionaram a ascensão imobiliária

Segundo E. B. Solomont, jornalista especializado em mercado imobiliário do The Wall Street Journal, "existe uma grande quantidade de pessoas de alta renda que se mudaram para a Flórida em busca dos benefícios oferecidos pela vida em Miami". Mayi De la Vega, fundadora da One Sotheby's International Realty, corrobora essa análise destacando que "a criminalidade é baixa, o clima é ótimo, há belas comunidades e não existem impostos estaduais".

A pandemia de COVID-19 funcionou como catalisador decisivo. Durante este período, a Flórida abriu-se aos negócios enquanto outros Estados mantinham restrições severas. O governador republicano Ron DeSantis eliminou obrigações de máscaras, reabrindo escolas, bares e restaurantes. Esta diferenciação atraiu personalidades influentes da tecnologia e finanças que buscavam ambientes menos restritivos. Peter Thiel, um dos fundadores do PayPal, e Ken Griffin, criador do fundo Citadel, foram entre os primeiros a se mudar, iniciando o fenômeno acumulativo que caracteriza a região atualmente.

Impostos estaduais e incentivos fiscais

A ausência de impostos estaduais na Flórida representa um dos principais atrativos para os ultrarricos. Enquanto Estados como Nova York, Califórnia e Illinois cobram impostos substanciais sobre seus residentes, a Flórida oferece vantagens tributárias significativas. Para bilionários, essa diferença representa economias de centenas de milhões de dólares ao longo de suas vidas. Solomont enfatiza que Miami "se tornou imensamente popular, não apenas pelo local e pelo estilo de vida, mas devido a este grande incentivo tributário".

Indian Creek: o bunker dos multimilionários

Indian Creek representa a materialização máxima do luxo exclusivo em Miami. Descrita como o "bunker dos multimilionários", esta ilha particular alberga as propriedades de Mark Zuckerberg, Jeff Bezos e Ivanka Trump. Embora não seja muito maior que o Central Park de Nova York, Indian Creek possui seu próprio prefeito e sistema de policiamento completo. O acesso ocorre através de uma discreta ponte branca, monitorada por duas guaritas de segurança.

De la Vega explica que Indian Creek "continua liderando em termos de preços astronômicos" porque, tratando-se de uma ilha particular, oferece múltiplas comodidades, lotes generosos e está totalmente rodeada de água. Essa configuração transforma o local em paraíso para proprietários de embarcações com segurança incomparável. Terrenos na ilha são comercializados por aproximadamente US$ 200 milhões, transformando-a numa reserva privada de privilegiados.

North Bay Road e outras regiões ultraluxuosas

Além de Indian Creek, outros endereços consolidaram-se como epicentros do ultraluxo em Miami. North Bay Road, uma via com aproximadamente 6,5 quilômetros em Miami Beach, abriga residências de celebridades como Shakira e do casal David e Victoria Beckham. O The Wall Street Journal calcula que aproximadamente US$ 1,7 bilhão em propriedades está concentrado nesta rua, transformando-a na via com maior valor patrimonial dos Estados Unidos.

Regiões mais tradicionais como Coconut Grove, Coral Gables e Key Biscayne também apresentam ofertas de imóveis superiores a US$ 60 milhões. Estes locais refletem a diversificação do mercado de ultraluxo, que deixou de se concentrar exclusivamente em ilhas particulares para expandir-se em diferentes comunidades da região metropolitana.

A escalada astronômica dos preços

Mayi De la Vega defende que o mercado imobiliário de Miami entrou "em uma nova era dos 'imóveis troféus'". Durante 2025, o mercado registrou vendas superiores a US$ 517 milhões, concentradas exclusivamente em propriedades acima de US$ 60 milhões. Esta métrica evidencia o crescimento exponencial dos preços nos segmentos mais elevados.

John Devaney relata que quando adquiriu os lotes que hoje compõem sua residência de US$ 237 milhões, em 2003, pagou US$ 15 milhões por cada lote, totalizando US$ 30 milhões. Estes preços representavam os patamares normais antes da pandemia. Para contextualizar, Mayi De la Vega recorda que a mansão de Shaquille O'Neill em Star Island foi vendida por aproximadamente US$ 16 a US$ 18 milhões durante aquele período.

Concentração de riqueza e crescimento ilimitado

O crescimento desmesurado dos preços correlaciona-se diretamente à concentração de riqueza global. Segundo o "Índice da Desigualdade", elaborado por economistas da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Escola de Economia de Paris, o patrimônio do 0,1% mais abastado multiplicou-se por quase 13 vezes nos últimos 50 anos. O estudo considera neste percentual pessoas que detêm patrimônio superior a US$ 43 milhões.

Esta disponibilidade massiva de capital nos cofres dos ultrarricos impulsiona os preços para patamares incompreensíveis para a população comum. Solomont observa que "os corretores de imóveis dizem que o valor é aquilo que alguém está disposto a pagar por alguma coisa". Enquanto um imóvel de US$ 1 milhão pode parecer impossível para pessoas convencionais, bilionários adquirem propriedades de US$ 60 milhões frequentemente em dinheiro vivo, sem considerar isto como despesa excepcional.

Impacto no custo de vida geral

O aquecimento do mercado ultraluxo em Miami gera efeitos cascata que afetam toda a estrutura de preços da região. Os dados de 2024 do Escritório de Estatísticas dos Estados Unidos indicam que a área de Miami, Fort Lauderdale e Palm Beach superou Nova York em termos de custo de vida. A região conhecida como Costa Dourada apresenta atualmente custo de vida aproximadamente 5% superior ao da área metropolitana de Nova York e seus subúrbios.

Os preços ao consumidor no sul da Flórida aumentaram 36% desde 2019, segundo o Escritório de Estatísticas Trabalhistas dos Estados Unidos. O canal Fox Business noticiou que os preços de moradia dispararam 79% desde a pandemia, enquanto o prêmio médio anual de seguro residencial é o mais alto do país. Paradoxalmente, após o pico de entrada de novos moradores impulsionado pela pandemia, o sul da Flórida começou perdendo habitantes nos últimos anos.

Questionamentos sobre sustentabilidade do mercado

Analistas expressam crescente preocupação sobre a sustentabilidade do modelo de preços vigente em Miami. Solomont questiona: "De certa forma, as pessoas querem saber se existe uma bolha. É realista pagar US$ 75 milhões por uma casa perto da água?". Esta indagação reflete a tensão entre a demanda extraordinária de bilionários e a disponibilidade limitada de propriedades premium.

O mercado de ultraluxo em Miami apresenta características de um segmento desconectado da realidade econômica tradicional, operando segundo dinâmicas próprias onde a lei de oferta e procura encontra resistência mínima. A continuidade deste padrão dependerá da manutenção do fluxo de ultra-milionários para a região e da sustentabilidade dos incentivos fiscais que motivam estas migrações, especialmente considerando as crescentes restrições de custo de vida que afastam população de classe média e profissionais convencionais da região.

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