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Data Centers no Brasil: Entre Inovação e Ceticismo Global

Data Centers no Brasil: Entre Inovação e Ceticismo Global
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

Data Centers no Brasil: A Aposta em Infraestrutura Computacional

Enquanto países como os Estados Unidos enfrentam crescente resistência popular contra a expansão de data centers, principais candidatos à Presidência do Brasil apresentam propostas ambiciosas para atrair essas instalações. A estratégia visa posicionar o país como potência em processamento de dados e inteligência artificial, aproveitando vantagens competitivas que faltam em outras nações.

Um data center é essencialmente um complexo que armazena e processa informações em larga escala. Entre os modelos mais relevantes atualmente estão os centros de nuvem, utilizados para armazenar arquivos e executar serviços pela internet, e os de inteligência artificial, dedicados ao treinamento de modelos de linguagem sofisticados e sistemas de IA avançados.

O Contraste Entre Brasil e Estados Unidos

A disparidade na quantidade de data centers entre os países é significativa. Enquanto os EUA possuem mais de 4.700 complexos desse tipo e lideram globalmente o segmento, o Brasil conta com apenas 218 instalações, ocupando a 12ª posição no ranking mundial segundo dados do Data Center Map de setembro.

Essa defasagem resulta em consequências econômicas diretas. O Brasil encerrou 2025 com um déficit de US$ 8 bilhões na balança comercial de Serviços de Computação e Informação, conforme informações da Brasscom, associação que representa empresas brasileiras de tecnologia. Essa cifra demonstra a necessidade urgente de aumentar a capacidade computacional doméstica para reduzir a dependência de processamento realizado no exterior.

O professor Daniel Cordeiro, especialista em computação sustentável da Universidade de São Paulo, ressalta a importância dessa expansão, mas com ressalvas: "Ainda não chegamos na quantidade de data centers e de problemas que esses outros países já têm. Temos que olhar para os problemas que estão acontecendo nos outros países e nos precaver para que o mesmo não aconteça aqui".

Vantagens Energéticas e Ambientais do Brasil

Uma das principais razões pelas quais data centers despertam interesse no Brasil relaciona-se à matriz energética nacional. Enquanto os EUA dependem significativamente de combustíveis fósseis, como petróleo e gás natural, a eletricidade brasileira é gerada em larga escala por fontes renováveis, particularmente usinas hidrelétricas, complementadas por energia eólica e solar.

Marina Garrote, diretora de operações da consultoria Reglab, destaca esse diferencial: "Com a matriz energética dos EUA, mais data centers significam mais emissões de carbono e conta de luz mais alta para o vizinho. No Brasil, se a expansão for, de fato, baseada em energia eólica e solar, o custo social será um pouco diferente".

Essa característica ambiental coloca o Brasil em posição estratégica única para expandir sua infraestrutura de processamento de dados sem comprometer significativamente as emissões de carbono, diferentemente do que ocorre em mercados como o americano.

Rejeição nos Estados Unidos e Pressão por Regulação

A resistência americana aos data centers é substancial e documentada. Uma pesquisa Reuters/Ipsos revelou que 64% da população norte-americana discorda da ideia de que construir rapidamente esses complexos será positivo para o país. Além disso, 57% dos respondentes são contrários à criação dessas instalações em seus próprios bairros.

Manifestantes em várias cidades americanas protestaram contra a expansão dessas instalações, citando preocupações com consumo elevado de energia e água, impactos ambientais e alterações na infraestrutura local. Apesar dessa rejeição, o presidente Donald Trump tem defendido publicamente o avanço do setor, reunindo-se em janeiro com executivos de gigantes de tecnologia como Elon Musk, Mark Zuckerberg, Sundar Pichai e Jensen Huang para discutir a expansão.

Propostas dos Candidatos Brasileiros para Atrair Data Centers

Em setembro de 2024, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center (Redata), que reduz significativamente os impostos de importação de equipamentos utilizados nesses complexos. Esse regime estabelece contrapartidas importantes: as empresas devem utilizar apenas energia renovável ou de baixo carbono e gastar no máximo 50 mililitros de água por quilowatt-hora.

As demais obrigações incluem destinar 10% da capacidade dos data centers para o mercado brasileiro e aplicar 2% do valor dos equipamentos em pesquisa dentro do país. Essa estrutura busca equilibrar atração de investimento com benefícios socioambientais e desenvolvimento tecnológico local.

Lula defende fomentar empresas brasileiras de inteligência artificial e criar versões nacionais de modelos de linguagem, como ChatGPT e Gemini. Flávio Bolsonaro (PL) propõe reduzir impostos sobre energia para esses complexos, conectando-os à exploração de minerais críticos usados em chips de IA. Ronaldo Caiado (PSD) inclui data centers como parte de uma cadeia de inovação ligada ao desenvolvimento de semicondutores. Renan Santos (Missão) almeja transformar o Brasil no maior exportador de processamento de dados para modelos de IA, enquanto Romeu Zema (Novo) defende criar um ambiente regulatório estável que garanta segurança jurídica.

Desafios Futuros e Considerações de Sustentabilidade

Thais Ortega, coordenadora de pesquisa do Reglab, observa que há consenso entre principais candidatos sobre atrair data centers, mas as diferenças residem em como isso será alcançado. Ela também aponta que certos aspectos do Redata ainda carecem de regulamentação, particularmente a definição clara de "energia de baixo carbono", o que teoricamente poderia incluir gás natural.

O desafio futuro reside em implementar essas políticas de forma responsável, medindo constantemente impactos ambientais e sociais. Cordeiro enfatiza: "Precisamos desse parque computacional instalado no Brasil. A questão é: temos que adaptar a nossa infraestrutura de indústria para ela poder se desenvolver, mas devemos tomar cuidado para que o impacto seja medido e não tenhamos um problema no futuro".

A ampla rede de cabos submarinos de internet que conectam o Brasil a outros países, somada ao mercado interno significativo, fortalecem ainda mais a posição estratégica para expansão de data centers no território nacional, transformando essa infraestrutura em elemento central das discussões sobre inovação tecnológica brasileira.

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