Chilena desaparecida na ditadura Pinochet é encontrada viva 50 anos depois

Mulher desaparecida na ditadura Pinochet encontrada viva após cinco décadas
Bernarda Rosalba Vera Contardo, considerada uma das vítimas de desaparecimento forçado durante a ditadura de Augusto Pinochet no Chile, foi encontrada viva residindo na Argentina. O caso de Bernarda Vera Contardo representa um dos episódios mais extraordinários relacionados aos registros de violações de direitos humanos no país sul-americano, levantando questões sobre a precisão histórica de documentos oficiais e a memória da repressão política chilena.
Aos 80 anos de idade, a mulher vive pacificamente em um balneário na região de Buenos Aires, onde foi localizada pela emissora chilena Chilevisión em meados de 2024. Seu paradeiro havia sido perdido em outubro de 1973, poucos dias após o golpe de Estado que levou Augusto Pinochet ao poder no Chile. A descoberta foi oficialmente confirmada pela Justiça chilena através de análise de DNA com probabilidade de identificação superior a 99,9999%.
O caminho de Bernarda Vera Contardo desde o desaparecimento
Em 1973, Bernarda Vera tinha apenas 27 anos, era casada, mãe de uma filha de cinco anos e trabalhava como professora em uma escola pública de Puerto Fuy. Ela atuava como militante política ativa, participando do Movimento de Esquerda Revolucionário (MIR) e do Movimento Camponês Revolucionário (MCR). Seu paradeiro foi perdido no contexto de intensa perseguição política que caracterizou os primeiros meses após o golpe militar chileno.
De acordo com testemunhos posteriores de companheiros de militância, Bernarda Vera conseguiu escapar dos militares em outubro de 1973 junto com um grande grupo de fugitivos. Eles permaneceram escondidos nas montanhas da região dos Andes até dezembro daquele ano. Com a assistência de Svante Grände, membro sueco do MIR, ela conseguiu sair clandestinamente do Chile e chegar à Argentina.
Após período na Argentina, Vera emigrou para a Suécia com seu novo marido argentino e um filho recém-nascido. Obteve seu primeiro visto e autorização de residência sueca em 1978 e construiu uma vida naquele país, onde teve mais dois filhos. Em 1984, adquiriu a cidadania sueca. Retornou à Argentina no final dos anos 1990, onde permaneceu morando discretamente até ser encontrada pelos jornalistas.
A versão oficial: Relatório Rettig e presunção de morte
A Comissão da Verdade e Reconciliação foi criada em 1990, nos primeiros meses do governo do presidente Patricio Aylwin, com o objetivo de documentar as violações de direitos humanos durante a ditadura chilena entre 1973 e 1990. Os pais de Bernarda Vera testificaram ante a comissão sobre seu desaparecimento.
O Relatório Rettig, publicado em 1991, incluiu Bernarda Vera como uma das 1.469 vítimas de desaparecimento forçado no Chile. O documento oficial registrava que ela havia sido detida por militares em 10 de outubro de 1973, em Liquiñe, na região pré-cordilheirana dos Andes. Segundo o relatório, ela teria sido executada junto com outras 15 pessoas na ponte de Villarrica sobre o rio Toltén, tendo seus restos lançados nas águas.
O documento mencionava que Bernarda Vera estava sendo intensamente procurada pelas autoridades militares por sua participação no ataque à barreira de Neltume. Seus familiares teriam sido informados de uma condenação à morte proferida à revelia contra ela. A mãe de Vera recebeu, em vida, pensão de reparação como familiar de vítima de violações de direitos humanos, assim como sua filha, que recebe benefícios por incapacidade.
Evidências que questionaram a versão oficial
Dúvidas sobre o desaparecimento de Bernarda Vera emergiram a partir de testemunhos de companheiros de militância. José Manuel Bravo, ex-membro do MIR, forneceu relato arquivado no Museu de Neltume confirmando que Vera estava entre os fugitivos que escaparam dos militares em outubro de 1973. Bravo afirmava que permaneceu ao lado dela nas montanhas até dezembro de 1973, dois meses após a data oficial de sua suposta detenção.
Em seu livro "De Carranco a Carrán: las tomas que cambiaron la historia", publicado em 2012, Bravo descreveu as capacidades de Vera para suportar as dificuldades da fuga nas montanhas. Essas informações contradiziam diretamente a narrativa oficial do Relatório Rettig, sugerindo que ela havia conseguido escapar e se exilar clandestinamente.
Confirmação científica e reação da família
O relatório pericial de DNA foi ordenado pelo ministro extraordinário chileno para direitos humanos, Álvaro Mesa Latorre. O perfil genético de Bernarda Vera foi comparado com amostras de seus familiares disponíveis no Banco Genético de Familiares de Prisioneiros e Executados Políticos do Serviço Médico Legal chileno. A análise, realizada através de um tribunal em Mar del Plata, Argentina, confirmou a identidade com probabilidade superior a 99,9999%.
A filha de Bernarda Vera, que tinha apenas cinco anos quando a mãe desapareceu, atualmente com 58 anos, não quis conceder entrevista ao saber da descoberta. Segundo relatos, ela expressou desconfiança, afirmando que acreditava que se sua mãe estivesse viva, teria entrado em contato com ela. A jornalista da Chilevisión que encontrou Bernarda Vera relatou dificuldades em comunicar à filha a notícia do achado, dada sua incredulidade.
Na segunda-feira 27 de julho, o ministro extraordinário Álvaro Mesa confirmou pessoalmente a verdade para a filha, informando os resultados do teste de DNA. O filho de Bernarda Vera, Maximiliano, informou aos jornalistas que sua mãe sempre imaginou que seria encontrada, mas que deseja viver em paz, sem revistar seu passado turbulento.
Implicações políticas e investigações administrativas
A descoberta levantou questões significativas sobre a responsabilidade estatal. Membros da direita chilena, apoiadores do presidente José Antonio Kast, exigiram investigação para determinar se fundos de reparação foram recebidos de má-fé e solicitaram a recuperação desses recursos. A ação judicial sobre o desaparecimento de Bernarda Vera foi aberta em 2009 pelo Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior e foi temporariamente arquivada em 2014.
Em 2025, o Plano Nacional de Busca, iniciativa do governo do ex-presidente Gabriel Boric de esquerda, entrou em contato com a filha de Bernarda Vera após constatar incongruências no caso. A reportagem televisiva revelou que diversas autoridades estatais tiveram conhecimento dessas incongruências por anos sem agir diligentemente.
O ex-policial Sandro Gaete, que integrou o Plano de Busca, denunciou que autoridades governamentais possuíam evidências desde 2024 que não foram levadas à Justiça. Segundo sua denúncia, o Estado chileno contava com informações sobre o caso desde 2007. O governo Boric afirmou ter enviado os antecedentes oportunamente ao ministro Álvaro Mesa. A administração atual anunciou investigações sumárias para determinar responsabilidades administrativas e notificará o Conselho de Defesa do Estado para ações judicais.
Legado de Bernarda Vera Contardo na memória histórica
O caso de Bernarda Vera Contardo representa um capítulo complexo na história dos direitos humanos chilenos durante a ditadura de Pinochet. Embora a ditadura chilena tenha deixado aproximadamente 40 mil vítimas entre desaparecidos, execuções ilegais, torturados e prisioneiros políticos, esse caso específico questiona a precisão absoluta dos registros históricos oficiais. A descoberta levanta debates sobre metodologia de investigação, fontes de prova e protocolos de verificação que sustentam os documentos memoriais sobre o período repressivo.
O desejo expresso por Bernarda Vera de viver em paz, sem reabrir as feridas de seu passado, contrasta com a necessidade institucional e política de esclarecer circunstâncias de seu desaparecimento e a documentação subsequente. Seu paradeiro na Argentina, sua família constituída em diferentes países e seu anonimato preservado por décadas refletem as estratégias de sobrevivência de muitos exilados políticos chilenos que construíram vidas fora de seu país de origem.
A investigação em andamento busca determinar se houve negligência administrativa, má conduta intencional ou simplesmente lacunas investigativas que resultaram na inclusão de Bernarda Vera entre as vítimas de desaparecimento forçado. Independentemente das conclusões, seu reaparecimento fornece um raro caso de esclarecimento tardio em um período histórico marcado por incerteza, luto e busca incessante de respostas pelas famílias dos desaparecidos.
