Trump critica Powell mesmo após relatório afastar crime

Críticas de Trump a Powell continuam mesmo sem provas de crime
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a atacar Jerome Powell e exigiu sua saída do conselho do Federal Reserve (Fed), nesta quarta-feira (30), mesmo após um órgão de fiscalização do governo descartar qualquer conduta criminosa envolvendo as reformas na sede da instituição. A declaração feita por Trump através da rede social Truth Social mantém viva a disputa que se estende há anos entre o mandatário e Powell.
Trump afirmou que "Powell deveria ser obrigado a renunciar ao conselho. Ele não consegue administrar um prédio e certamente não deveria ter permissão para administrar sua política de juros altos". O presidente americano ainda acrescentou que, caso Powell não abandone voluntariamente a posição, "deveria ser processado nas instâncias mais altas".
Relatório exonera Powell de crime, mas identifica falhas administrativas
A inspeção-geral do Fed divulgou relatório que conclui não existir fundamento para encaminhar o caso à Justiça nem evidências de má conduta administrativa relacionadas aos aumentos nos custos das reformas da instituição. O documento afirma claramente: "Em nenhum momento durante nossa avaliação encontramos fundamentos razoáveis para acreditar que tivesse ocorrido uma violação da legislação criminal federal que exigisse o encaminhamento do caso ao procurador-geral dos EUA".
Embora tenha afastado acusações criminosas, o relatório identificou deficiências significativas na supervisão do projeto. Os investigadores encontraram problemas que contribuíram para que a reforma dos dois prédios históricos do Fed em Washington custasse aproximadamente US$ 1 bilhão (R$ 5,17 bilhões) a mais do que inicialmente previsto. O projeto está atualmente orçado em cerca de US$ 2,4 bilhões (R$ 12,4 bilhões).
Análise das falhas na supervisão do projeto de reforma
A inspeção concluiu que uma supervisão interna mais rigorosa poderia ter limitado significativamente o aumento dos custos. Um dos principais problemas identificados diz respeito à forma como o Fed conduziu um contrato que deveria estabelecer um preço máximo garantido para a obra. Na prática, esse limite nunca foi fixado adequadamente, permitindo que gestores do projeto continuassem aprovando subcontratações que elevaram tanto os custos quanto o prazo da reforma.
O relatório apresenta exemplos específicos dos problemas encontrados. Um deles envolve os sistemas hidráulico e de climatização, pelos quais o Fed pagou US$ 346 milhões (R$ 1,79 bilhão) – o triplo do valor estimado inicialmente. Esses números evidenciam como a falta de controle adequado permitiu escalações significativas de despesas.
Debate sobre luxo versus necessidade nas reformas
A Casa Branca e aliados de Trump haviam atribuído o aumento dos custos a melhorias consideradas luxuosas, como mármore, elementos de água e um terraço com jardim. O relatório da inspeção-geral, porém, concluiu que esses itens "não contribuíram de forma relevante" para o estouro do orçamento.
Powell havia argumentado anteriormente que os gastos adicionais decorreram de dificuldades inesperadas, como a retirada de amianto, além de custos de materiais e mão de obra maiores que o previsto. A construção também avançou profundamente no subsolo, o que contribuiu para custos adicionais não previstos nos orçamentos iniciais.
Histórico de tensões entre Trump e Powell
As críticas atuais de Trump a Powell não são novas. O presidente indicou Powell para a presidência do Fed no final de 2017, mas começou a criticá-lo publicamente no ano seguinte por não reduzir os juros no ritmo desejado pelo governo. Durante anos, Trump exerceu pressão sobre o banco central por taxas menores, alinhadas com suas políticas econômicas.
No segundo mandato de Trump, o aumento dos custos da reforma da sede do Fed tornou-se um novo foco dos ataques contra Powell. Em julho de 2025, Trump visitou pessoalmente o local das obras para reforçar suas críticas. Na ocasião, Powell contestou publicamente diante das câmeras o valor do estouro de custos citado pelo presidente, criando um impasse visível.
Pressão legal e ameaças de indiciamento
A tensão entre os dois escalou significativamente em janeiro de 2026, quando a Procuradoria dos Estados Unidos no Distrito de Colúmbia intimou o conselho do Fed a entregar informações sobre os gastos da reforma e sobre um depoimento de Powell ao Congresso. Powell revelou, em um pronunciamento incomum em vídeo, que o Departamento de Justiça havia ameaçado indiciá-lo criminalmente.
O então presidente do Fed classificou essa iniciativa como uma tentativa de intimidar uma instituição que define os juros de acordo com o que considera melhor para o país, e não segundo as preferências do presidente. Powell argumentou que a ameaça violava a independência necessária para que o Fed funcionasse adequadamente.
Decisão judicial e encerramento da investigação
Em março, um juiz federal anulou as intimações contra o conselho do Fed, concordando com o argumento de Powell de que elas serviam como pretexto para pressioná-lo a reduzir os juros ou deixar o cargo. A investigação do Departamento de Justiça foi posteriormente encerrada, e o caso foi enviado à inspeção-geral do Fed, que divulgou o relatório nesta quarta-feira.
Powell permanece no conselho apesar das pressões
Powell deixou a presidência do banco central em maio, mas permaneceu como integrante do conselho. Seu mandato nessa função ainda não terminou. Em sua última entrevista coletiva como presidente do Fed, em abril, Powell justificou sua permanência dizendo: "Eu disse que não deixaria o conselho até que esta investigação estivesse verdadeiramente concluída, com transparência e de maneira definitiva, e mantenho essa posição".
O atual presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que adotará as recomendações do relatório para a gestão do projeto de reforma e contratará uma auditoria independente para verificar a exatidão e a conformidade dos custos aprovados até o momento. Essa ação visa restaurar a confiança na gestão financeira da instituição e implementar melhorias administrativas.
