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Témiscaming enfrenta crise com fábrica fechada por tarifas de Trump

Témiscaming enfrenta crise com fábrica fechada por tarifas de Trump
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

A cidade que depende de uma fábrica

Quando as tarifas de Trump começaram a impactar a economia canadense, nenhuma cidade sentiu o golpe tão duramente quanto Témiscaming, Quebec. A pequena localidade, fundada há mais de um século em torno de uma fábrica de papel, vê-se agora à beira do colapso econômico. A paralisação da unidade produtiva, principal gerador de empregos e sustento da comunidade, transformou tarifas de Trump em uma ameaça existencial para milhares de pessoas.

Cruzando o rio Ottawa em direção ao município, a estrutura industrial domina completamente a paisagem. Énesse cenário que vivem os 360 funcionários que dependem diretamente daquela operação. Após o fracasso nas negociações comerciais entre Canadá e Estados Unidos, a proprietária americana RYAM decidiu paralisar as operações por tempo indeterminado, deixando a comunidade inteira em situação de incerteza.

Consequências econômicas imediatas

Os efeitos das tarifas de Trump sobre a região foram catastróficos e imediatos. A maioria dos trabalhadores da fábrica encontra-se desempregada, dependendo unicamente do programa de alívio tarifário oferecido pelo governo para sobreviver. Nadine Suley, uma das moradoras, descreve a situação como um ataque pessoal à cidade. Ela não se vê como alguém da metrópole; caça alces na temporada de caça e enxerga a comunidade como seu lar integral, não apenas um local de trabalho.

O valor dos imóveis em Témiscaming desabou da noite para o dia. Placas de venda proliferam nos jardins das casas modestas que caracterizam o município. Profissionais de serviços essenciais — desde funcionários de supermercados até médicos — temem precisar abandonar a localidade. Ronnie Raymond, cuja família trabalha na indústria há gerações, expressa o medo coletivo: a transformação de Témiscaming em uma cidade fantasma.

Impactos em cadeia no setor florestal

A crise não se limita à fábrica de papel. Efeitos cascata atingem toda a cadeia produtiva florestal regional. Serrarias e empresas de transporte rodoviário enfrentam consequências diretas. Um contratista local já precisou demitir 13 funcionários como resultado da paralização. A indústria madeireira, que historicamente sustentou a região, vê-se ameaçada pelo peso das tarifas de Trump implementadas em agosto, que atingem 50% sobre aproximadamente 28 bilhões de dólares canadenses em produtos como celulose, papel e papelão.

A fábrica de Témiscaming produzia papelão para embalagens de alimentos congelados em toda a América do Norte e bilhetes de loteria instantânea. Cerca de 75% de sua produção era destinada ao mercado americano, tornando-a extremamente vulnerável aos aumentos tarifários.

O contexto macroeconômico canadense

Embora a economia canadense como um todo tenha mantido relativa resiliência durante a guerra comercial com seu maior cliente, análises mais detalhadas revelam focos críticos de dificuldade. A taxa de desemprego nacional permanece estável em torno de 6,5%, com crescimento econômico moderado porém consistente. Porém, setores diretamente afetados pelas tarifas americanas — aço, alumínio, automóveis e madeira-celulose-papel — enfrentam crises severas.

Essa disparidade levanta questões sobre a adequação das respostas governamentais. Stéphane Lefebvre, funcionário sindical cuja família trabalha na fábrica há gerações, aponta que uma perda equivalente de empregos em Toronto, Montreal ou Vancouver geraria pressão política imediata por intervenção. Yet o setor florestal em Témiscaming segue largamente negligenciado nas prioridades governamentais.

Comparação com outros setores apoiados

Enquanto isso, outras indústrias recebem atenção significativa. Após ameaças da ministra da Indústria Mélanie Joly sobre sanções à siderúrgica Stelco caso demitisse 500 funcionários, o primeiro-ministro Mark Carney e o governador de Ontário, Doug Ford, anunciaram um pacote de quase 9 bilhões de dólares canadenses para os setores siderúrgico e automobilístico. O governo também disponibilizou 400 milhões de dólares especificamente para o setor florestal, porém muitos consideram isso insuficiente diante da magnitude da crise.

Esperança no modelo histórico de 1973

Trabalhadores e gestores de Témiscaming buscam inspiração em um precedente histórico. Em 1973, enfrentaram ameaça similar de fechamento. Mobilizados, adquiriram coletivamente a fábrica, transformando-a na Tembec, empresa de propriedade quebequense que se expandiu internacionalmente. Agora, buscam repetir esse feito, mobilizando uma coalizão de moradores para recomprar a unidade da RYAM, que a adquiriu em 2017.

Frank Dottori, hoje aposentado aos mais de 80 anos, liderou aquele esforço histórico. Ele recorda ter sido educadamente despachado pelo então primeiro-ministro de Quebec quando buscou apoio pela primeira vez. Mesmo assim, conseguiu viabilizar o plano com ajuda sindical e um colega carismático com experiência gerencial. Dottori enfatiza que a nova geração necessita de alguém igualmente audacioso, além de apoio governamental substancial e suspensão das tarifas para viabilizar economicamente a operação.

Posicionamentos governamentais e políticos

O prefeito Alain Gauthier não culpa a RYAM, mas caracteriza as tarifas americanas como bomba destinada a destruir a produção industrial canadense. Demanda respostas federais equivalentes, incluindo tarifas sobre papelão importado dos EUA que atualmente entram sem cobrança. Ele critica a falta de evidência de medidas de guerra econômica real, afirmando que o Canadá responde com pistolinhas de água contra uma arma real.

Sébastien Lemire, deputado do Bloc Québécois eleito por Témiscaming, manifestou preocupação profunda com a falta de ação governamental. Um porta-voz da ministra Joly afirmou à BBC que o governo trabalha ativamente com todas as partes envolvidas para encontrar solução viável, administrando responsavelmente os recursos públicos.

Perspectivas futuras e esperanças

Muitos trabalhadores depositam esperanças nas próximas eleições de meio de mandato nos Estados Unidos. Esperam que resultados eleitorais aumentem pressão sobre Trump — cujos índices de aprovação caem segundo pesquisas — para reduzir algumas tarifas ao Canadá. Indicadores sugerem sensibilidade do governo Trump a essa pressão: na semana passada, suspenderam algumas tarifas sobre produtos canadenses após articulação da senadora republicana Susan Collins pelo Maine, concorrendo à reeleição.

Contudo, essas suspensões não incluem produtos fabricados em Témiscaming. Suley e colegas temem o inverno próximo, quando temperaturas congelantes poderiam danificar irreversivelmente equipamentos paralisados, tornando reabertura ainda mais difícil.

Lefebvre mantém determinação inabalável. Afirma estar no "jogo 7" da disputa econômica e jogar até o apito final. Sua esperança sustenta-se na possibilidade de retorno da fábrica aos moradores, independentemente dos eventos que se desenrolar, mantendo viva a chama de uma comunidade que recusa-se a desaparecer.

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