Kiko Dinucci lança 'Medusa': guitarras e experimentalismo

Kiko Dinucci Medusa: o novo disco que redefine a experimentação sonora
Lançado em 9 de setembro, o terceiro álbum solo de Kiko Dinucci, intitulado 'Medusa', apresenta uma jornada audaciosa através de texturas sonoras inovadoras. O trabalho, que chega através da gravadora Risco, consolida a posição do artista paulistano como um dos pilares fundamentais da cena musical independente do século XXI, utilizando guitarras, fitas e samplers para radicalizar sua proposta estética experimental.
O disco 'Medusa' marca o retorno de Kiko Dinucci aos estúdios como artista solo após seis anos do lançamento de 'Rastilho' (2020). A produção foi realizada sob supervisão de Juçara Marçal, colaboradora que aparece de forma recorrente nas dez composições do álbum, reforçando a sintonia criativa entre os artistas.
Uma Estrutura Conceitual Baseada em Ruídos e Texturas
A obra visual de 'Medusa' foi concebida pela artista plástica Tatiana Blass, inspirada na composição "Faca da palavra". Essa integração entre elementos visuais e sonoros estabelece uma narrativa coesiva que permeia todo o projeto discográfico.
A abertura do álbum ocorre com "Cão Perdido", uma faixa climática que imediatamente situa o ouvinte no contexto urbano paulistano. Gravada por Kiko Dinucci em colaboração com o guitarrista Lello Bezerra, a música apresenta a saga de um personagem que vagueia pela selva da metrópole, sem paz e sem destino. A instrumentação ressalta a angústia existencial associada ao espaço urbano denso.
Colaborações que Enriquecem a Proposta Artística
Uma das características marcantes de 'Medusa' reside nas parcerias estratégicas que Kiko Dinucci estabeleceu para este projeto. Romulo Fróes aparece em "Como foi?", uma balada de coração partido que contrasta com a proposta experimental geral do álbum. A melodia dessa composição apresenta uma arquitetura harmônica refinada, evocando a sensibilidade de compositores consagrados, porém subvertida por ruídos na segunda metade da gravação que duram quase seis minutos.
Maria Beraldo integra o projeto em "Cascuda", uma composição melancolica que utiliza o som da ferragem como elemento simbólico de desconexão urbana. A colaboradora também marca presença em outras faixas, demonstrando a profundidade das relações criativas entre os artistas envolvidos no disco.
O Samba Reinventado em 'Medusa'
Kiko Dinucci explora gêneros tradicionais da música brasileira através de uma ótica experimental inovadora. "Claudia, Frota e Eu", parceria com Negro Leo, apresenta um samba estruturado em esquema noise que remete aos primeiros trabalhos do artista, particularmente ao álbum 'Cortes Curtos' (2017), lançado há nove anos com uma proposta de ambiência punk.
"Segundo Eterno" segue a cadência do samba em tom relativamente tradicional, sendo composto especificamente para a trilha sonora da peça teatral "Avenida Paulista" (2025), dirigida por Felipe Hirsch. Nessa composição, Kiko Dinucci reflete sobre a cidade natal através de versos que mencionam "calçada, gente correndo rumo à morte", configurando uma crítica social envolta em musicalidade samba.
Experimentalismo e Produção Inovadora
A faixa "Água Viva", fruto da parceria entre Kiko Dinucci e Sophia Chablau, conta com a participação de Podeserdesligado, codinome artístico de uma produtora musical carioca residente em São Paulo, conhecida por sua atuação no universo experimental. O resultado é uma composição ruidosa que desafia convenções sonoras estabelecidas.
"Casca do Olho" representa outro exemplo da radicalização experimental de Kiko Dinucci em 'Medusa'. Construída como um samba com ecos industriais que remetem à banda alemã Einstürzende Neubauten, a faixa foi estruturada sob colaboração de Podeserdesligado e Gustavo Infante, consolidando uma narrativa sonora que transita entre o tradicional e o radicalmente contemporâneo.
Influências e Referências Culturais
"Loira Palmer" apresenta alto teor erótico em composição assinada por Kiko Dinucci e Crystal Duarte, integrante da banda fluminense Vera Fisher Era Clubber. A música dialoga diretamente com o universo surrealista do cineasta norte-americano David Lynch, cujo falecimento em 2025 representa uma perda significativa para a cultura audiovisual contemporânea.
O Percurso Artístico de Kiko Dinucci
Como cantor, compositor e guitarrista, Kiko Dinucci consolidou-se como uma figura central na cena indie paulistana do século XXI, partilhando espaço criativo com artistas como Rodrigo Campos, Romulo Fróes e Juçara Marçal. Seu trajeto discográfico demonstra evolução consistente, desde os primeiros trabalhos solo até a proposta radical de 'Medusa'.
O álbum 'Medusa' funciona como síntese de toda essa trajetória, onde Kiko Dinucci cruza a selva da cidade de São Paulo entre guitarras ressonantes e ruídos experimentais que transformam a experiência auditiva em uma reflexão profunda sobre a existência urbana contemporânea.
