365 Nacional
Tecnologia

IA compra livros usados em massa para treinar modelos

IA compra livros usados em massa para treinar modelos
Imagem: g1.globo.com. Uso informativo; os direitos pertencem ao seu titular.

O fenômeno inexplicável nas livrarias de livros usados

Um padrão extraordinário de compras tem intrigado proprietários de sebos em todo o mundo. A inteligência artificial compra livros em quantidades antes nunca vistas, gerando questões sobre os verdadeiros motivos dessas aquisições massivas. Stuart Manley, gestor da Barter Books em Northumberland, Inglaterra, testemunhou um pedido único que equivaleu ao volume de sete dias de vendas normais — algo que surpreendeu alguém com três décadas de experiência no mercado de livros usados.

Essa tendência não se restringe à Inglaterra. Livreiros independentes de diversos países reportam megapedidos igualmente enigmáticos, frequentemente oriundos de empresas canadenses e outras organizações cujos objetivos finais permanecem obscuros. A inteligência artificial compra livros com uma voracidade que intriga o setor, levantando suspeitas de que não se trata de leitores convencionais, mas de entidades com fome insaciável por dados textuais.

A decisão judicial que mudou o jogo

O comportamento da inteligência artificial compra livros intensificou-se após uma sentença judicial significativa nos Estados Unidos em 2025. Um juiz determinou que o uso de livros adquiridos dessa forma para entrenar softwares de IA não constituía infração à legislação de direitos autorais americana. William Alsup, o magistrado responsável, classificou a utilização de obras pelos autores pela empresa Anthropic como "extremamente transformadora", justificando sua legalidade sob a lei vigente.

O caso originou-se de uma ação judicial movida por três autores contra a Anthropic, fabricante do chatbot Claude. Quando os documentos processuais tornaram-se acessíveis publicamente, revelou-se informação perturbadora: livros eram destruídos durante o processo de treinamento do assistente de inteligência artificial.

O Projeto Panamá: digitalização destrutiva em escala global

Registros judiciais divulgados demonstraram que a iniciativa de ingestão de livros antigos era designada internamente como "Projeto Panamá". Os documentos indicavam um objetivo ambicioso: "digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo". Essa digitalização destrutiva envolve transportar volumes para instalações especializadas onde sofrem processamento industrial acelerado.

O procedimento inclui remover a lombada do livro, possibilitando que todas as páginas sejam digitalizadas rapidamente, enquanto os resíduos são reciclados. Manley reconhece a existência de especulações consideráveis sobre esse projeto nos fóruns de comerciantes de livros, embora confesse desconhecimento sobre se seus livros especificamente foram adquiridos para esse fim ou iniciativas semelhantes de outras corporações de inteligência artificial.

Por que a diversidade temática revela padrões de IA

As compras realizadas variam entre textos obscuros em latim e romances de faroeste, demonstrando aleatoriedade aparente. Contudo, especialistas argumentam que precisamente essa variedade indica envolvimento de inteligência artificial. Textos incomuns e raros proporcionam material de treinamento superior para aperfeiçoar grandes modelos de linguagem — a arquitetura tecnológica que potencializa ferramentas generativas como chatbots.

Emily Hudson, professora especializada em propriedade intelectual da Universidade de Oxford, destaca que as disposições legais britânicas divergem substancialmente das norte-americanas. "O ponto de partida no Reino Unido estabelece que atos de cópia — fabricar a biblioteca de treinamento e executar o treinamento — exigem consentimento do detentor dos direitos autorais", elucida.

A perspectiva das empresas de inteligência artificial

Um porta-voz da Anthropic afirmou que o Claude é treinado utilizando combinação de dados web publicamente disponíveis, conjuntos adquiridos comercialmente e informações geradas internamente. A empresa ressaltou que procurar livros para treinamento configura prática disseminada na indústria de inteligência artificial. Acrescentaram que nenhum programa de aquisição de dados compra e destrói livros raros ou antiquários.

Apesar dessas garantias, a perspectiva de volumes transformados em polpa de papel gera inquietação considerável entre os profissionais do setor livreiro e defensores da preservação cultural.

Dilema ético para proprietários de sebos

David Tobin, administrador da Walden Books em Londres, também registrou transações fora do padrão. Expressa sentimento ambivalente: "De certa forma, é favorável comercializar títulos que permaneceram encalhados durante anos, mas seria lamentável se fossem posteriormente destruídos", comenta.

Derek Walker, proprietário da McNaughtan's em Edimburgo, articula preocupações específicas: "Uma publicação acadêmica contemporânea, lançada em quantidade limitada de cem exemplares — setenta e cinco dos quais já estão arquivados — pode ser extremamente rara comercialmente, mas talvez não represente prejuízo significativo se um exemplar for destruído". Contudo, ressalva: "Comercializamos exemplares que são, ilustrativamente, o único conhecido de uma edição do século 18. Constituiria problema substancialmente mais grave se tal obra fosse adquirida para destruição, após ter persistido por séculos".

Uma questão de sustentabilidade versus preservação

Manley reconhece que reciclar livros oferece solução viável para inúmeros títulos rejeitados pelo público contemporâneo, especialmente quando impulsiona operações comerciais. "Algumas pessoas nutrem preocupações éticas respeitante ao destino dos livros e possível destruição", admite. "Porém, a sociedade não necessita de cinco milhões de exemplares de O Código Da Vinci. Tenho livros anunciados on-line há duas décadas que jamais foram comercializados".

Esse dilema encapsula a tensão contemporânea entre viabilidade econômica, inovação tecnológica e preservação patrimonial. A inteligência artificial compra livros continua crescendo, forçando o setor a equilibrar oportunidades comerciais contra preocupações culturais legítimas.

Continuar a ler

Criptomoedas

Ethereum (ETH) $1,879 ▼ 0.06%
BNB $607 ▼ 0.09%
Solana (SOL) $75 ▲ 0.02%

Divisas

GBP/USD1.3537
USD/CHF0.8118