Advogado Willer Tomaz possui seis propriedades em ilhas de Angra dos Reis

Advogado investigado no STF possui múltiplas propriedades em ilhas do Rio de Janeiro
O advogado Willer Tomaz, que segue sob investigação no Supremo Tribunal Federal (STF) juntamente com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) por suspeitas de lavagem de dinheiro, controla seis propriedades localizadas em ilhas de Angra dos Reis, na Costa Verde do Rio de Janeiro. Além da propriedade que se tornou centro de disputa judicial com o jogador Richarlison, Tomaz acumula outras cinco residências na região, adquiridas através de empresas de sua titularidade, com valores patrimoniais que chegam a dezenas de milhões de reais.
O conjunto de investimentos imobiliários de Willer Tomaz em Angra dos Reis revela um padrão de aquisições concentradas entre 2021 e 2022, período coincidente com apresentação de projetos legislativos no Senado Federal que buscam flexibilizar as regras de exploração econômica das unidades de conservação na região e permitir a privatização das ilhas marítimas brasileiras.
Cronologia das aquisições de propriedades em Angra
Levantamento realizado nos sistemas da Secretaria de Patrimônio da União (SPU) e em registros cartorios evidencia que Willer Tomaz expandiu significativamente seu portfólio imobiliário nas ilhas fluminenses. Com exceção de um imóvel adquirido em 2008, todas as demais propriedades foram compradas entre 2021 e 2022, período estratégico que antecede modificações regulatórias propostas na legislação federal.
Na Ilha Comprida, Tomaz possui quatro propriedades distintas, todas adquiridas pela empresa WT Administração de Imóveis e Bens. A primeira aquisição ocorreu em setembro de 2021, envolvendo terreno de 175,2 mil metros quadrados com valor patrimonial registrado de R$ 5,7 milhões. No mesmo mês, foi adquirido segundo imóvel de 32,8 mil metros quadrados avaliado em R$ 2,1 milhões, seguido por terceira propriedade de 181,8 mil metros quadrados no valor de R$ 6 milhões.
A quarta propriedade na Ilha Comprida, adquirida em julho de 2022, compreende terreno menor de 2,1 mil metros quadrados, porém de elevado valor patrimonial de R$ 2,9 milhões. Este imóvel específico transformou-se em centro de disputa judicial com Richarlison de Andrade, jogador do Tottenham que anteriormente ocupava a residência.
Na Ilha do José André, Tomaz possui participação através da empresa Friponor Brasil Turismo, Empreendimentos e Participações, que adquiriu terreno de 57,3 mil metros quadrados em 2008. Este imóvel apresenta o maior valor patrimonial registrado entre as propriedades, alcançando R$ 23,7 milhões. Na Ilha do Jorge, Tomaz controla cotas de sexta residência através da empresa Real Estate Duo 4, pertencente ao grupo Prime You, empresa especializada em administrar bens de luxo compartilhados entre milionários.
Contexto político e propostas legislativas
Os investimentos de Willer Tomaz em Angra dos Reis ocorrem simultaneamente à apresentação de projetos legislativos pelo senador Flávio Bolsonaro que visam transformar a região. Em outubro de 2021, Flávio apresentou projeto de lei complementar para formar Região Administrativa Integrada de Desenvolvimento Sustentável (Rides) englobando Angra dos Reis, Mangaratiba e Paraty, com objetivo de estimular turismo e economia através da municipalização de unidades de conservação federais e estaduais.
A justificativa do projeto descreve Angra dos Reis como cenário paradisíaco comparável a destinos turísticos internacionais como Tailândia, Filipinas, Cancun, Grécia, Jamaica, Bahamas e Fiji. O projeto permanece em tramitação na Comissão de Meio Ambiente do Senado desde abril de 2025, aguardando análise e votação pelos parlamentares.
Flávio também atua como relator da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) das Praias no Senado Federal. Esta proposta, apresentada originalmente em 2011 na Câmara dos Deputados e aprovada em fevereiro de 2022, propõe permitir privatização das ilhas marítimas do país, hoje pertencentes à União. Designado relator em abril de 2022, Flávio elaborou relatórios prevendo exclusão de terrenos de marinha da lista de bens federais, permitindo que ocupantes privatizem as ilhas. O texto aguarda análise na Comissão de Constituição e Justiça do Senado.
Envolvimento do governo Bolsonaro em Angra dos Reis
Os planos para transformação econômica de Angra dos Reis datam do governo Jair Bolsonaro. Em maio de 2019, o então presidente declarou desejo de transformar Angra em nova Cancun, afirmando que região poderia gerar bilhões de reais anuais em receita turística. Bolsonaro criticou a Estação Ecológica de Tamoios, argumentando que limitações ambientais impediam desenvolvimento econômico da área.
Em 2022, quando ocorreram as aquisições principais de Willer Tomaz, a Secretaria de Patrimônio da União estava subordinada ao governo de Jair Bolsonaro. Período coincide com celeridade incomum na tramitação de processos administrativos relacionados a propriedades de Tomaz, conforme apontado por servidor da SPU consultado pela reportagem.
Projeto de resort luxuoso na Ilha do José André
Na Ilha do José André, localizada dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) de Tamoios, Willer Tomaz apresentou projeto ambicioso para construção de resort de luxo. O empreendimento incluiria piscinas, beach club, spa, restaurante especializado, áreas para eventos, hangar e heliponto, conforme divulgado pela mídia local.
Em março de 2026, Tomaz apresentou pedido ao Instituto Estadual do Ambiente (Inea) para expandir área construída na ilha. No mesmo dia, o então governador Cláudio Castro publicou decreto revogando planos de manejo de áreas de proteção ambiental, movimento que poderia facilitar aprovação do empreendimento. Posteriormente, o desembargador Ricardo Couto, ao assumir governo estadual, derrubou o decreto de Castro, impedindo avanço do projeto de resort.
Disputa com jogador Richarlison
O episódio que trouxe visibilidade aos investimentos de Willer Tomaz em Angra dos Reis foi disputa por propriedade com Richarlison de Andrade, atacante do Tottenham. Em outubro, Richarlison publicou vídeos nas redes sociais acusando Flávio Bolsonaro de envolvimento direto na disputa pela residência de luxo localizada na Ilha Comprida.
Richarlison afirmou que ocupava propriedade desde 2020 e investiu R$ 10 milhões através de empresa Sport 70, da qual é sócio. Segundo relato do jogador, Flávio visitou ilha e demonstrou interesse na aquisição, porém o atleta recusou venda. Na visão de Richarlison, o senador se aliou a Willer Tomaz para obter direitos sobre imóvel.
Análise dos processos da SPU revela que empresa Sport 70 solicitou regularização de utilização em setembro de 2021, processo que não avançou. Simultaneamente, empresa de terceiros denominada M Locadora de Veículos solicitou regularização em maio de 2022, obtendo tramitação célere favorável. Em julho de 2022, a M Locadora transferiu propriedade para WT Administração de Imóveis e Bens de Willer Tomaz. O pedido de Certidão de Autorização para Transferência foi processado em aproximadamente duas horas pela SPU.
Willer Tomaz apresenta escritura registrada, certidão da SPU e decisões judiciais favoráveis, incluindo decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ). O advogado sustenta que Richarlison pagou a posseiros e não à proprietária de direito.
Investigação no Supremo Tribunal Federal
As atividades de Willer Tomaz em Angra dos Reis seguem sob análise do STF, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo o advogado e o senador Flávio Bolsonaro. Flávio e Tomaz confirmam amizade pessoal mas negam relações comerciais ou societárias. Tomaz se mudou para Estados Unidos em agosto deste ano após operação da Polícia Federal.
Dois parlamentares do PT, Rogério Correia e Pedro Uczai, pediram ao STF para investigar disputa de Richarlison no mesmo inquérito que apura relações entre senador e Tomaz, com ministro Alexandre de Moraes atuando como relator do caso.
Posicionamento contra PEC das Praias
Em setembro de 2024, já durante governo de Lula, a Secretaria de Patrimônio da União manifestou-se contrária à aprovação da PEC das Praias através de nota técnica. Para SPU, a proposta favorece amplamente condições jurídicas para grilagem de costa brasileira em favor de população mais abastada do país, prejudicando patrimônio público.
