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Economista explica insatisfação brasileira sob Lula

Economista explica insatisfação brasileira sob Lula
Fonte: g1.globo.com/economia/noticia/2026/07/11/a-economista-que-tenta-entender-a-insatisfacao-dos-brasileiros-sob-lula-redes-sociais-criam-desejos-de-consumo-para-alem-do-crescimento-da-renda.ghtml

O paradoxo da economia brasileira sob o terceiro mandato de Lula

A insatisfação brasileira representa um dos maiores enigmas da atual conjuntura econômica. Enquanto indicadores macroeconômicos mostram sinais positivos, como desemprego em níveis históricos mínimos de 5,6% em maio de 2025, a população segue descontente com a situação econômica do país. Essa desconexão entre a realidade dos números e a percepção das pessoas constitui o foco central de pesquisas conduzidas por economistas especializados na compreensão desse fenômeno complexo.

O crescimento econômico mantém-se consistente: 3,2% em 2023, 3,4% em 2024 e 2,3% em 2025. Simultaneamente, aproximadamente 17,5 milhões de brasileiros saíram da situação de pobreza entre 2022 e 2024. Apesar dessas conquistas quantificáveis, pesquisa Genial/Quaest realizada em junho revelou que 44% dos entrevistados afirmam que a economia piorou nos últimos doze meses, enquanto apenas 20% reconhecem melhorias. Esse cenário intrigante impulsionou estudos aprofundados sobre as razões reais dessa insatisfação brasileira que permeia diferentes segmentos sociais.

Análise de economista da USP sobre o descompasso

Laura Carvalho, professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA-USP) e integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, dedicou-se a investigar essa desconexão perturbadora. Recentemente, publicou artigo intitulado "Paradoxos do Lulismo: a desconexão entre resultados macroeconômicos e percepção sobre a economia", desenvolvido em colaboração com seu marido Guilherme Klein Martins, economista da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Segundo a análise conjunta dos pesquisadores, quatro fatores primordiais explicam essa divergência: os efeitos persistentes da inflação sobre o bem-estar das pessoas; a comparação inevitável com o ciclo de mobilidade social experimentado nos anos 2000, durante os dois primeiros mandatos Lula; a transformação dos desejos de consumo populacional, amplamente estimulada pelo alcance das redes sociais; e a frustração de uma geração crescentemente escolarizada que enfrenta dificuldades para encontrar empregos adequados à sua formação educacional.

Redes sociais e o fenômeno do consumo aspiracional

Dentre os fatores identificados, as redes sociais exercem papel particularmente significativo na formação de expectativas de consumo. Carvalho observa que as plataformas digitais modificaram substancialmente a dinâmica do que economistas denominam "efeito demonstração". Anteriormente, as pessoas observavam padrões de consumo limitados ao seu círculo imediato: vizinhos, amigos e familiares. Atualmente, o acesso a informações globalizadas permite que indivíduos visualizem o estilo de vida de pessoas da classe média europeia ou de indivíduos ricos em seu próprio país.

"Com as redes sociais, as pessoas têm acesso ao padrão de consumo de classes muito mais ricas, de forma muito mais fácil", afirma a professora. Essa exposição contínua a padrões de vida elevados gera homogeneização e globalização dos desejos de forma inédita na história econômica, produzindo sensação de insatisfação generalizada. O consumo aspiracional não se limita a bens materiais, abrangendo também atividades de lazer, viagens e padrões de vida globalmente alcançáveis, pelo menos virtualmente.

Diferenças entre o crescimento dos anos 2000 e o atual

A comparação entre os resultados econômicos dos governos anteriores de Lula e o contexto presente revela nuances importantes. Durante os anos 2000, a distribuição de renda na base da pirâmide, combinada ao crescimento econômico expressivo, incluiu população previamente excluída do mercado consumidor. Esse segmento conquistou acesso a bens duráveis como geladeiras e viagens aéreas, marcando o surgimento de uma nova classe média brasileira.

Contudo, essa mesma classe média, agora saturada pelo acesso a bens básicos, deixou de considerar esses padrões de consumo como satisfatórios. A população atual aspira a níveis de vida significativamente superiores àqueles que representaram mobilidade social nos anos 2000. Essa elevação de expectativas, alimentada por visualização contínua de padrões internacionais nas redes sociais, explica parcialmente por que crescimento econômico positivo não se traduz em contentamento generalizado.

Concentração de riqueza e desigualdade persistente

Beyond renda imediata, a questão da concentração de riqueza permanece central para compreender a insatisfação brasileira. O World Inequality Report 2026, divulgado pelo grupo de economistas associados a Thomas Piketty, demonstrou que a desigualdade brasileira encontra-se entre as mais elevadas globalmente, tendo inclusive aumentado entre 2014 e 2024. Carvalho destaca que enquanto o Brasil conseguiu reduzir desigualdade entre a classe média e grupos mais pobres através de programas sociais e valorização do salário mínimo, a concentração no topo da pirâmide mantém-se intacta.

Essa estrutura de desigualdade perpetua-se através de mecanismos que extrapolam simples tributação de renda. A concentração de riqueza supera a de renda, e essa disparidade consolida-se no sistema político. Indivíduos de alto patrimônio exercem influência desproporcional para preservar estruturas econômicas existentes, impedindo reformas que redistribuam recursos de maneira mais equitativa.

Papel da dívida pública na perpetuação da desigualdade

Carvalho identifica a dívida pública brasileira como instrumento involuntário de transferência de renda para os estratos mais ricos. O Estado, mediante pagamento de juros elevados sobre dívida pública, canaliza recursos para detentores de títulos, frequentemente indivíduos de alto patrimônio que obtêm rendimentos substanciais com risco mínimo envolvido. Esse mecanismo significa transferência direta de renda do Estado para os mais ricos, perpetuando estruturas de desigualdade.

A economista problematiza o fato de que o custo distributivo da dívida pública raramente figura em debates públicos de relevância. Quando o governo federal paga juros reais elevados em contexto de restrição fiscal, simultaneamente reduz capacidade para investir em serviços públicos que beneficiariam segmentos de menor renda. Essa dinâmica cria círculo vicioso onde desigualdade inicial alimenta mecanismos que a amplificam progressivamente.

Agenda necessária para novo ciclo de prosperidade

Para romper esse padrão de insatisfação brasileira, Carvalho propõe agenda multifacetada. Primeiramente, crescimento econômico mais robusto torna-se imperativo, acompanhado de redistribuição deliberada de renda. Quanto maior a desigualdade, mais desafiador torna-se beneficiar maioria da sociedade com dividendos do crescimento econômico.

Segundo, expansão de serviços públicos de qualidade reduz gastos privados necessários. Acesso a sistema de saúde público robusto elimina necessidade de planos privados; educação pública adequada reduz demanda por ensino privado; transporte público eficiente libera recursos domésticos para outras aspirações. Essas mudanças de qualidade de vida contribuem para aproximar população de padrões aspirados sem depender unicamente de aumentos salariais.

Terceiro, avanço na agenda de tributação complementa essas medidas. Carvalho defende que debate evolua além de imposto de renda progressivo para incorporar alguma forma de taxação de riqueza, atacando acumulação histórica que perpetua desigualdade estrutural.

Reformas fiscais e subsídios tributários

A economista enfatiza que expansão fiscal necessária para financiar serviços públicos ampliados repousa em reformas tributárias sequenciais. Além de impostos progressivos sobre renda, gastos tributários atuais representando 6% do PIB merecem revisão. Muitas deduções tributárias expandiram-se historicamente por pressão de setores beneficiados, sem perseguir objetivos de política pública claramente definidos, alimentando desigualdade silenciosamente.

Simultaneamente, Carvalho reconhece necessidade de eficiência contínua na provisão de serviços públicos. Digitalização de procedimentos administrativos permite que cada real investido atinja maior número de pessoas com qualidade superior. Contudo, rejeita premissa de que trabalhadores do setor público constituem inimigos do orçamento federal ou que cortes em benefícios sociais resolvem adequadamente desafios de financiamento.

Desafio da geração escolarizada e emprego qualificado

Carvalho identifica frustração particular em gerações amplamente educadas através de expansão de ensino superior durante governos petistas anteriores. Programas como Fies e Prouni, além de expansão de universidades federais, permitiram que filhos de famílias sem tradição universitária obtivessem diplomas. Essa população busca empregos compatíveis com qualificação, encontrando disponibilidade predominante em posições de salário mínimo em setores de serviços baixamente qualificados.

Nas últimas décadas, percentual crescente de trabalhadores universitários ocupa posições que requerem qualificação inferior à que possuem. Essa desconexão entre educação obtida e oportunidades disponíveis alimenta insatisfação brasileira particularmente aguda nesse segmento. Resolver essa tensão demanda política industrial coordenada que identifique setores onde Brasil possui competitividade internacional, direcionando investimentos e formação educacional conforme necessidades estruturais reais.

Perspectivas futuras para economia brasileira

Conforme Carvalho analisa, a insatisfação brasileira não desaparecerá rapidamente. Dado que renda permaneceu estagnada durante longo período, requerirá tempo substancial até que população sinta satisfação com padrões de vida alcançados. Necessita-se não apenas que economia cresça significativamente, elevando níveis de renda, mas também que tal crescimento distribua-se equitativamente entre segmentos populacionais.

A economista trabalha atualmente em novo livro analisando agenda de prosperidade econômica necessária para superar desafios contemporâneos. Esse projeto reflete preocupação fundamental com identificação de "frestas" políticas através das quais agendas de transformação econômica possam ser implementadas em contexto de restrições fiscais e limitações políticas reais. A construção de novo ciclo de prosperidade no Brasil dependerá da capacidade de articular crescimento econômico, redistribuição de renda, expansão de serviços públicos e reforma tributária em estratégia coerente e viável politicamente.

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